terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Camaleoa!
Parece que Meryl Streep está prontinha pra viver a dama de aço nas telonas. “The Iron Lady” é o apelido dado para Margaret Thatcher, a primeira ministra a dirigir o Reino Unido. A política ganhou este nome devido à sua força diante das dificuldades que enfrentou para governar o país com “mãos de ferro”, em 1979. As filmagens apenas começaram na Inglaterra, por isso não existe ainda uma previsão para o filme chegar nos cinemas.
Os 10 mandamentos da noite parisiense:
- Nunca chegue a pé. Quando você porta nos ombros o PIB de um país africano, chegue de carro.
- Nada de roupas com brilho e cabelos arrumadíssimos. Chegue underdressed e com os cabelos presos tipo “saindo do chuveiro”.
- Desça do carro acompanhada, no mínimo, por seis homens. Três do lado esquerdo e três do direito.
- Peça um Belvedere ginger-basílico ou o melhor champagne.
- Ignore os beijinhos e prefira o free hug americano menos gastro-transmissor.
- Se perguntarem onde estava antes, diga que deu uma passadinha em um bar sujo mas trendy lá para os lados de Oberkampf.
- Ignore o I Gotta Feeling mas dance freneticamente o Blue Monday.
- Converse somente 10 minutos com a mesma pessoa porque o seu objetivo na vida é aumentar a sua rede.
- Vá embora antes das 3 horas da manhã para escapar do grupo “depressão de fim de festa”. No dia seguinte faça uma massagem californiana na L’ Usine e almoce no Ralph’s.
Montana – 28 rue Saint Benoît 75006 Paris.
L’Usine: um dos melhores clubs de ginástica de Paris.
Ralph’s: o restaurante da marca Ralph Lauren.
Fonte: http://www.conexaoparis.com.br/
- Nada de roupas com brilho e cabelos arrumadíssimos. Chegue underdressed e com os cabelos presos tipo “saindo do chuveiro”.
- Desça do carro acompanhada, no mínimo, por seis homens. Três do lado esquerdo e três do direito.
- Peça um Belvedere ginger-basílico ou o melhor champagne.
- Ignore os beijinhos e prefira o free hug americano menos gastro-transmissor.
- Se perguntarem onde estava antes, diga que deu uma passadinha em um bar sujo mas trendy lá para os lados de Oberkampf.
- Ignore o I Gotta Feeling mas dance freneticamente o Blue Monday.
- Converse somente 10 minutos com a mesma pessoa porque o seu objetivo na vida é aumentar a sua rede.
- Vá embora antes das 3 horas da manhã para escapar do grupo “depressão de fim de festa”. No dia seguinte faça uma massagem californiana na L’ Usine e almoce no Ralph’s.
Montana – 28 rue Saint Benoît 75006 Paris.
L’Usine: um dos melhores clubs de ginástica de Paris.
Ralph’s: o restaurante da marca Ralph Lauren.
Fonte: http://www.conexaoparis.com.br/
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Cora Ronai, os aeroportos e as lojinhas de bairro!
O governador Sérgio Cabral reconheceu, enfim, que o Galeão “é uma vergonha para o povo do Rio”. Para quem viaja tanto, demorou a fazer a constatação, evidente até para quem nunca saiu do país. Mas o Galeão não virou o pior aeroporto do Brasil do dia para a noite. Ele é péssimo há tempos, e há tempos cariocas e visitantes reclamam disso. Não é estranho, então, que, em nome deste aeroporto de quinta, o mesmo governador que hoje reconhece o óbvio tenha impedido uma companhia aérea novinha de se instalar no Rio de Janeiro?
Isso aconteceu há muito tempo, há bem uns três anos, mas ainda dói em muito coração carioca. A Azul acabava de ser criada: com 200 milhões de dólares, era a companhia de fundação mais capitalizada da história da aviação mundial, e pretendia se estabelecer aqui -- desde que pudesse operar a partir do Santos Dumont, recém-reformado. De lá, informava-se à época, teria vôos diretos para 22 destinos, grande pedida para quem mora no Rio e não tem jatinho à disposição.
A vontade da Azul de se instalar no Rio era tanta que a empresa chegou a brigar na Justiça pelo direito de voar do Santos Dumont; mas o governador Sérgio Cabral – esse mesmo, que só agora descobriu que o Galeão não presta -- fez o que pode para impedir isso. A desculpa oficial, não sei se vocês lembram, é que o Galeão não podia ser “esvaziado”; o governador preferiu esvaziar o Rio de uma empresa com a qual só tinha a ganhar. A Azul passou a voar de Campinas, São Paulo ganhou uma excelente companhia aérea e nós ficamos a ver navios.
Não sou de guardar rancor, mas, como carioca, até hoje não me conformo com essa história.
* * *
Agora mesmo, no começo do ano, passei pela experiência humilhante de decolar do Galeão e aterrissar no MacCarran, de Las Vegas – um aeroporto internacional digno do nome, grande, confortável, limpo, sempre tinindo. Já perdi a conta do número de vezes que fui a Las Vegas – as maiores feiras de tecnologia acontecem lá – mas não perco a admiração por aquele aeroporto, que vem se mantendo tão bem ao longo dos anos. Há sempre uma novidade qualquer no MacCarran, que é lindo, tem wi-fi grátis por todo lado e usa parte de seu generoso espaço como galeria de arte. A curadoria é ótima, e as exposições são, em geral, muito interessantes.
Esperar por um vôo num aeroporto assim não é sacrifício nenhum. Há boas lojas, uma quantidade de bares e restaurantes, cadeiras confortáveis e tomadas para os notebooks e celulares dos passageiros. Las Vegas não vai sediar nenhum evento esportivo de magnitude mundial nos próximos anos, mas em termos de aeroporto, dá de dez a zero no Rio. Detalhe: estamos falando de uma cidade que não chega a ter 600 mil habitantes. Contando com boa vontade, e incluindo as áreas vizinhas numa espécie de “grande Las Vegas”, não chega a dois milhões. E isso porque Vegas foi, nos últimos anos, uma das cidades que mais cresceu nos Estados Unidos.
Pior do que a comparação em tamanho é a comparação histórica. Las Vegas nasceu no século passado e é uma invenção mantida artificialmente, uma espécie de miragem em concreto. O Rio é uma cidade de verdade, que cresceu de forma natural ao longo dos séculos, foi capital, tem História. Não é um parque de diversões. A razão existencial de Las Vegas é o turismo, e faz sentido que tenha um bom aeroporto; o que não faz é que uma cidade como o Rio, atração turística em si mesma, mas com toda uma vida para além dos postais, não tenha. Receber um cidadão de Las Vegas no Galeão é constrangedor. Las Vegas, vejam vocês: não estamos sequer falando de Londres ou de Chicago.
Para lá dos hotéis e das luzes feéricas, há uma cidade “normal” em Las Vegas – uma típica cidade americana de interior, cheia de subdivisions (algo entre a superquadra de Brasília e o quarteirão), com renques de casinhas iguais da classe média e casarões hollywoodianos de ricaços. Aqui e ali, um comércio miúdo, passando por um aperto terrível, já que a cidade foi das mais atingidas pela crise.
Quando não encontrei na Best Buy a câmera que queria, liguei para a primeira loja de fotografia que achei na consulta ao Galaxy Tab; eles tinham duas em estoque. Assim é que peguei um taxi e fiz a travessia entre a Las Vegas dos turistas e a dos moradores. Cheguei a uma lojinha pequena, de bairro. Perguntei o preço e o vendedor me deu a informação na defensiva: “igual ao do Best Buy e ao da Amazon”.
Na sacola, junto com a máquina e um paninho para limpar a lente, ele pôs um folheto que só vi no hotel. Era a divulgação de um projeto para salvar o pequeno comércio.
“Pense nas três lojas independentes que mais lhe fariam falta se desaparecessem. Passe por elas e dê um alô. Compre uma coisinha qualquer. É a sua contribuição que as sustenta.”
Fiquei com pena do moço da lojinha, tendo que competir com as Best Buys da vida. E, apesar de achar muito conveniente encontrar tudo num só lugar, pensei, pela enésima vez, na falta graça do comércio globalizado, nas mesmas marcas repetidas nos mesmos shoppings repetidos pelo mundo afora.
Saudade do tempo em que a gente viajava e trazia coisas realmente diferentes de cada lugar. E, sobretudo, em que não morria de vergonha da chegada no nosso aeroporto.
Isso aconteceu há muito tempo, há bem uns três anos, mas ainda dói em muito coração carioca. A Azul acabava de ser criada: com 200 milhões de dólares, era a companhia de fundação mais capitalizada da história da aviação mundial, e pretendia se estabelecer aqui -- desde que pudesse operar a partir do Santos Dumont, recém-reformado. De lá, informava-se à época, teria vôos diretos para 22 destinos, grande pedida para quem mora no Rio e não tem jatinho à disposição.
A vontade da Azul de se instalar no Rio era tanta que a empresa chegou a brigar na Justiça pelo direito de voar do Santos Dumont; mas o governador Sérgio Cabral – esse mesmo, que só agora descobriu que o Galeão não presta -- fez o que pode para impedir isso. A desculpa oficial, não sei se vocês lembram, é que o Galeão não podia ser “esvaziado”; o governador preferiu esvaziar o Rio de uma empresa com a qual só tinha a ganhar. A Azul passou a voar de Campinas, São Paulo ganhou uma excelente companhia aérea e nós ficamos a ver navios.
Não sou de guardar rancor, mas, como carioca, até hoje não me conformo com essa história.
* * *
Agora mesmo, no começo do ano, passei pela experiência humilhante de decolar do Galeão e aterrissar no MacCarran, de Las Vegas – um aeroporto internacional digno do nome, grande, confortável, limpo, sempre tinindo. Já perdi a conta do número de vezes que fui a Las Vegas – as maiores feiras de tecnologia acontecem lá – mas não perco a admiração por aquele aeroporto, que vem se mantendo tão bem ao longo dos anos. Há sempre uma novidade qualquer no MacCarran, que é lindo, tem wi-fi grátis por todo lado e usa parte de seu generoso espaço como galeria de arte. A curadoria é ótima, e as exposições são, em geral, muito interessantes.
Esperar por um vôo num aeroporto assim não é sacrifício nenhum. Há boas lojas, uma quantidade de bares e restaurantes, cadeiras confortáveis e tomadas para os notebooks e celulares dos passageiros. Las Vegas não vai sediar nenhum evento esportivo de magnitude mundial nos próximos anos, mas em termos de aeroporto, dá de dez a zero no Rio. Detalhe: estamos falando de uma cidade que não chega a ter 600 mil habitantes. Contando com boa vontade, e incluindo as áreas vizinhas numa espécie de “grande Las Vegas”, não chega a dois milhões. E isso porque Vegas foi, nos últimos anos, uma das cidades que mais cresceu nos Estados Unidos.
Pior do que a comparação em tamanho é a comparação histórica. Las Vegas nasceu no século passado e é uma invenção mantida artificialmente, uma espécie de miragem em concreto. O Rio é uma cidade de verdade, que cresceu de forma natural ao longo dos séculos, foi capital, tem História. Não é um parque de diversões. A razão existencial de Las Vegas é o turismo, e faz sentido que tenha um bom aeroporto; o que não faz é que uma cidade como o Rio, atração turística em si mesma, mas com toda uma vida para além dos postais, não tenha. Receber um cidadão de Las Vegas no Galeão é constrangedor. Las Vegas, vejam vocês: não estamos sequer falando de Londres ou de Chicago.
Para lá dos hotéis e das luzes feéricas, há uma cidade “normal” em Las Vegas – uma típica cidade americana de interior, cheia de subdivisions (algo entre a superquadra de Brasília e o quarteirão), com renques de casinhas iguais da classe média e casarões hollywoodianos de ricaços. Aqui e ali, um comércio miúdo, passando por um aperto terrível, já que a cidade foi das mais atingidas pela crise.
Quando não encontrei na Best Buy a câmera que queria, liguei para a primeira loja de fotografia que achei na consulta ao Galaxy Tab; eles tinham duas em estoque. Assim é que peguei um taxi e fiz a travessia entre a Las Vegas dos turistas e a dos moradores. Cheguei a uma lojinha pequena, de bairro. Perguntei o preço e o vendedor me deu a informação na defensiva: “igual ao do Best Buy e ao da Amazon”.
Na sacola, junto com a máquina e um paninho para limpar a lente, ele pôs um folheto que só vi no hotel. Era a divulgação de um projeto para salvar o pequeno comércio.
“Pense nas três lojas independentes que mais lhe fariam falta se desaparecessem. Passe por elas e dê um alô. Compre uma coisinha qualquer. É a sua contribuição que as sustenta.”
Fiquei com pena do moço da lojinha, tendo que competir com as Best Buys da vida. E, apesar de achar muito conveniente encontrar tudo num só lugar, pensei, pela enésima vez, na falta graça do comércio globalizado, nas mesmas marcas repetidas nos mesmos shoppings repetidos pelo mundo afora.
Saudade do tempo em que a gente viajava e trazia coisas realmente diferentes de cada lugar. E, sobretudo, em que não morria de vergonha da chegada no nosso aeroporto.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Para os fãs de vinil, a Volkswagen acaba de lançar uma invenção incrível. Trata-se de uma pequena kombi que anda por cima do disco e toca as suas músicas.
Lançado na CES, o item estará disponível (por enquanto) somente no Japão e, claro, chamou muito a atenção das pessoas. Tudo o que você precisa fazer é soltar a kombi em algum dos lados do disco e deixá-la tocar.
Geladeira e Fogão Brastemp Retrô!!! SUPER CHARMOSOS!!
Numa mistura de traços clássicos e modernos, o novo refrigerador Brastemp Retrô resgata verdadeiros ícones da história da marca: o simpático esquimó da Brastemp no grafismo do painel; o alinhamento vintage, tanto interno quanto externo com linhas mais curvas; os puxadores em liga de alumínio cromado; e o logo utilizado pela Brastemp nos anos 50.
o Fogão Brastemp Retrô. O design traz a cara do passado com a modernidade do presente com elementos como o backsplash (complemento decorativo do fogão), grafismos e abas laterais, que remetem à década de 50.
O alinhamento do fogão 4 bocas segue o mesmo estilo vintage do refrigerador, inclusive com os detalhes cromados e a figura do tradicional esquimó.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Calligaris fala tudo sobre a relação terapeuta-paciente ao analisar "O Dircurso do Rei".
JÁ ESTÁ em cartaz (pré-estreia) "O Discurso do Rei", de Tom Hooper. O filme foi indicado ao Oscar em doze categorias; a atuação de Colin Firth (o rei) é tão inesquecível quanto a de Geoffrey Rush (o terapeuta).
Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.
O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?
O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.
1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.
Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.
2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.
3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.
4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.
5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)
Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.
Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.
Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.
Resumo. Quando George 5º morreu, o filho primogênito lhe sucedeu (com o nome de Eduardo 8º), mas por um breve período: logo ele abdicou, por querer uma vida diferente daquela que o ofício de rei lhe proporcionaria. Com isso, o cadete, duque de York, tornou-se rei -inesperadamente e num momento decisivo: era a véspera da Segunda Guerra Mundial.
O duque de York (e futuro George 6º) era tímido, temperamental e, sobretudo, gago -isso numa época em que, graças ao rádio, a oratória dos ditadores incendiava as praças do mundo: na hora do perigo, para que serve um rei se ele não consegue ser a voz que fala para o povo e por ele?
O filme, imperdível, conta a história (verídica) da relação entre o rei e seu terapeuta, Lionel Logue, um fonoaudiólogo australiano pouco ortodoxo. Eis algumas reflexões saindo do cinema.
1) Qualquer terapia começa com uma dificuldade prática: uma impotência, a necessidade de um conselho, uma estranha tensão nos ombros, uma gagueira. A relação terapêutica se constrói a partir dessa dificuldade: o terapeuta é quem saberá nos livrar do transtorno, seja ele fonoaudiólogo, terapeuta corporal, eutonista, psi (de qualquer orientação) etc.
Quer queira quer não, a ação do terapeuta é dupla: relaxaremos o ombro, exercitaremos a dicção ou endireitaremos o pensamento do paciente, mas, de uma maneira ou de outra, acabaremos mexendo nas fontes de um mal-estar mais geral que talvez se manifeste no transtorno.
2) Há, às vezes (mais vezes do que parece), escondidas no nosso âmago, ambições envergonhadas ou vergonhosas, que não confessamos nem a nós mesmos. Quando sua realização se aproxima, só podemos inventar jeitos de fracassar, porque, no caso, não nos autorizamos a querer o que desejamos.
Obviamente, detestamos a voz do terapeuta que se aventura a nos dizer o que queremos mas não nos permitimos. Essa voz atrevida é a única aliada de desejos que são nossos, mas que encontram um adversário até em nós mesmos.
3) No trabalho psicoterapêutico, o segredo de polichinelo é que, por mais que suspendamos diplomas em nossas salas de espera, somos todos leigos e aventureiros. Não sei se existem cursos ou estágios que ensinem a ouvir o que Logue ouve e entende do desejo escondido do duque de York. Certamente não há formações que ensinem a coragem maluca do terapeuta do rei, seu esforço para se colocar, sem medo, ao serviço do que o duque e futuro rei não quer saber sobre si mesmo.
4) Pensando bem, Logue (como Freud) tinha, sim, uma formação que o qualificava como conhecedor da alma humana e especialmente da dos reis: a leitura de Shakespeare.
5) Quase sempre, chega o dia em que um paciente descobre que seu terapeuta sabe muito menos do que ele (o paciente) imaginava. O paciente pode até pensar que o terapeuta, atrás de seu bricabraque de saberes práticos, é um impostor. É ótimo que isso aconteça, pois, geralmente, é sinal de que o paciente descobriu que ele também é um impostor. No caso, o terapeuta não é qualificado para ser terapeuta, exatamente como o rei não é qualificado para ser rei. (Parêntese: em geral, é assim que nasce uma amizade: os dois se tornam amigos por aceitarem estar ambos nus, como o rei da fábula - mesmo que seja só por um instante.)
Não há como ser terapeuta ou rei sem alguma impostura. Todos carregamos máscaras. Avançamos mascarados, enfeitados por mentiras que nos embelezam. Até aqui, tudo bem: essa impostura é uma condição trivial e necessária da vida social. Os melhores conhecem sua impostura e sabem que não estão à altura de sua máscara.
Os piores se identificam com sua máscara. Acreditar nas máscaras que vestimos é um delírio que nos torna perigosos. Não há diferença entre o rei que acreditasse ser rei, o terapeuta que acreditasse ser terapeuta e o anjo exterminador que saisse atirando e matando, perfeitamente convencido de ser uma figura do apocalipse. Os três teriam isto em comum: acreditariam ser a máscara que eles vestem.
Enfim, que Deus nos guarde de todos os que não enxergam sua própria nudez.
Pense nisso. Rá.
Ninguém é tão feio quanto na identidade,
Tão bonito quanto no orkut,
Tão feliz quanto no facebook,
Tão simpático quanto no twitter,
Tão ausente quanto no skype,
Tão ocupado quanto no msn,
E nem tão bom quanto no curriculum vitae.
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