sexta-feira, 28 de novembro de 2014
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014
segunda-feira, 10 de novembro de 2014
Viva a Casa do Rio Vermelho!!
Crônica de domingo, 9 de novembro de 2014: De volta à Tenda dos Milagres
Que tem como epígrafe, os versos de Caetano Veloso para Pedro Archanjo:
Quem é ateu e viu milagres como eu
Sabe que os deuses sem Deus
Não cessam de brotar, nem cansam de esperar
Dia 7 de novembro, 8 horas da manhã.
Chego à minha casa do Rio Vermelho, pela primeira vez após a reforma. Imagino o que vou encontrar, mas não tenho a certeza. Vou só, e da porta ouço a voz de meu pai. A voz linda, a voz amada convida a conhecer a Bahia. Meu coração aperta de uma maneira, que penso que não vou dar conta da emoção. Entro na sala. Ela está igual ao que sempre foi, até a máquina de escrever na ponta da mesa, pronta para ser usada. Quem sabe nascerá mais um capítulo de "Bóris, o Vermelho", dando continuidade ao romance inacabado. Não me contenho, saio para o jardim em busca do banco da mangueira, do aconchego de meus pais. O jardim está esplendoroso, todo recuperado, florescente, cheirando a pitanga, pois o chão está cheio delas e as pitangueiras carregadas. João Jorge, meu mano, chega e nos abraçamos. Choro muito, e muito ainda vou chorar ao longo do dia. O dia da inauguração do Memorial, no qual renasce a minha casa, trazendo de volta os momentos mais felizes de minha vida.
Meu pai dizia:
-- Nunca deixe de sonhar. O sonho é o maior bem, pois é inalienável, ninguém pode tomá-lo de você, minha filha. É a partir dele que realizamos as melhores coisas das nossas vidas.
-- E vemos milagres verdadeiros, como nossa casa renascida em todo o seu esplendor, depois de tantos anos, a volta da festa permanente, da alegria incomensurável, não é Pai?, eu lhe digo embaixo da mangueira, e sei que me escuta e está feliz como eu.
Mamãe se negava a morrer. A cada saída da UTI, vencendo os edemas pulmonares, que indicavam seu fim, segundo os doutores, dizia com firmeza:
-- Não adianta, eu me recuso a morrer sem ver esta casa transformada num memorial para Jorge.
Ela queria reveranciá-lo viva. Não foi possível. Como é contra a natureza os filhos partirem antes dos pais, ela não resistiu à morte de seu primogênito, Luiz Carlos. Mamãe partiu pouco depois, deixando a nosso encargo o sonho do qual não abriu mão.
O Memorial foi feito, Mãe, e reverencia a brava italiana, a Oxum mais baiana! Minha mainha, cuja voz doce vou seguindo pela casa, na ânsia de um abraço apertado.
Mãe, nós conseguimos! Seu neto Jonga, nosso menino tão querido, batalhou bravamento. Sua neta Maria João, nossa Mary Jones, o seguiu nesta luta. Ninguém deixou seu sonho acabar, Mãe. Sabe, fiz para o canto da sala as mesmas flores de papel que um dia fizemos juntas. Ficou lindo, já não sei se foram as minhas ou as suas mãos que a fizeram.
Dia 7 de novembro, 4 horas da tarde.
A casa está cheia, o dia é de inauguraçæo oficial, com discursos e cerimônias. Há um encantamento geral. Quem já conhecia a casa, a frequentava, se espanta por estar tão igual. Quem só ouvira falar, se espanta com tamanha beleza. E a voz de papai que vinha da sala, dá lugar à de Maria Bethânea, que informa ao visitante existir um céu no fundo do mar, igualzinho ao que se conhece, só que com lua cheia todos os dias.
Sônia veio produzida de Tieta, está ao meu lado no palquinho. Estão também minha filha Cecília, meu neto Felipe, João Jorge e Dorinha de mãos dadas, e meus sobrinhos e sobrinhos-netos. E mais o Prefeito Antonio Carlos Magalhães Neto, que trouxe a avó, minha muito querida dona Arlete.E o Secretário de Cultura e Turismo, Guilherme Bellintani, com sua equipe. E Myriam Fraga, diretora da Fundação Casa de Jorge Amado. E Gringo Cardia, o mágico que devolveu à nossa casa a sua face, como se a tivesse frequentado por toda sua vida.
Descerrada a placa, inaugurada a casa, discursos muitos. Devo discursar também. Parece mentira, mas não lembro de uma só palavra que disse. Quaisquer que tenham sido, foram de emoção incontida e verdadeira.
Vejo no jardim minhas amigas Bete Capinan e Rina Angulo. Bete, dona dos mistérios do arquivo fotográfico de mamãe, sua tutora, atendeu a todos os pedidos de Gringo, e foram muitos mais do que se pode imaginar. Não só trabalhou de forma incansável, como me levou para trabalhar com ela. Foram maravilhosos dias revisitando minha vida em sua companhia. Rina, minha irmã querida, meu apoio, meu Norte. Meu agradecimento também é para elas.
Dia 7 de novembro, 7 hora da noite.
Recebo na porta da rua Alagoinhas minha filha Mariana. Ela, André, seu marido, e meu neto Nicolau, acabam de chegar de Brasília. Tão parecida comigo. Nana não contém as lágrimas ao ouvir a voz do avô na sala.
Estou com toda a minha família. A Casa nos reune, e pela primeira vez estamos todos: filhos, netos e bisnetos.
Mãe, saiu melhor que a encomenda!
Dia 8 de novembro, 11 horas da manhã.
Ligo para João, ele está na casa. Deu uma passadinha para ver o movimento. Tem bastante gente, neste primeiro dia de visitação.
Dia 8 de novembro, 4 horas da tarde.
Chegamos ao Rio Vermelho com duas horas de antecedência à festa que reunirá um grupo de amigos na visita ao Memorial. Aproveitamos para ver com calma todos os filmes, entrevistas, depoimentos... Todos?! Vão ser necessários muitos dias para desvendar tudo, se é que se consegue esta façanha.
Fico na sala para receber os convidados. Cada amigo que chega, traz seu melhor abraço. As lágrimas são uma constante. Sônia hoje é Dona Flor, está ainda mais linda. Me dá alegria ver os antigos funcionários da casa, os fiéis amigos que cuidaram de mamãe até o último dia. Com eles amigos de toda a vida, amigos novos, até mesmo amigos feitos nas redes sociais vieram. Vêm artistas, amigos de fora, que viajaram de seus estados para festejar conosco, parentes de nossos parentes. A vontade é agradecer a um por um por ter vindo, citar cada nome. Tarefa difícil, quem sabe uma crônica só para isso!
A casa mantém sua tradição de apresentar e reunir pessoas. Apresento minha prima Beth Ramos a Maria e Georgiana de Moraes. Eu, que tantas vezes fui apresentada como filha de Jorge Amado, não me constranjo em declinar os parentescos na hora da apresentação: a neta de Graciliano Ramos, as filhas de Vinícius de Moraes! E rimos muito, tiramos fotos, as descendentes da literatura nacional!
Dia 8 de novembro, 9 horas da noite.
As crianças não pararam de correr a tarde inteira. Lugar melhor do que o Memorial do bisavô para brincar de esconde-esconde não existe. E ainda tem o lago dos sapos, que ficou no lugar da piscina, com sapos vivos. Miguel, filhinho de Jonga, entrou de roupa e tudo para ir atrás de um deles.
Vencida pelo cansaço, estou me preparando para ir embora, quando Pedrinho, filho de Bruno e neto de João, chega perto de mim, e com a mãozinha cobrindo a boca num coxixo, me segredeia a grande novidade de Júlia, a bisneta mais velha, filha de Maria João:
-- Tia, a Júlia beijou o sapo!
-- E ele virou príncipe?, eu pergunto.
Ele dá de ombros:
-- Pior que não!
Me dou conta que foi a casa quem se livrou do feitiço que se lhe abateu por um tempo. Voltou a ser a Casa do Rio Vermelho, que um dia foi minha e agora é de todos.
Boa semana a todos, quem puder, vá visitar o Memorial.
terça-feira, 4 de novembro de 2014
domingo, 2 de novembro de 2014
sábado, 1 de novembro de 2014
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
terça-feira, 28 de outubro de 2014
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
Elas são a mesma pessoa depois de algumas plásticas! Socorro!
domingo, 19 de outubro de 2014
A comida baiana de Jorge Amado. Por Paloma Jorge Amado.
Entre dois (re)lançamentos do meu livro "A cozinha Baiana de Jorge Amado", gostaria de contar deste livro, que renasce após anos esgotado, e há 20 anos de seu lançamento.
Leitora assídua de George Simenon, apaixonada pelo Comissário Maigret, um dia ganhei de meu pai o livro "Le cahier des recettes de Mme. Maigret". Em estrutura bastante simples, Courtine, o autor, apresentava os pratos comidos pelo comissário da polícia francesa, suas receitas, a armonização com a bebida, além de citar um trechinho do livro onde o prato aparece. Eu, apaixonada por livros de cozinha e pelo escritor franco-belga, fiquei deslumbrada. Tive tanto prazer com a leitura, que passei a pensar em fazer algo semelhante com a obra de papai. A maior diferença seria analisar toda a obra e não tratar apenas de um só personagem.
O trabalho inicial foi a leitura em ordem cronológica dos livros, fichando todas as referências a comidas e bebidas, e à falta delas quando em momentos de fome e pobreza. Levei seis anos para ir do primeiro ao último, sendo que os dois derradeiros, "O sumiço da santa" e "A descoberta da América pelos turcos", foram escritos enquanto eu já realizava minha pesquisa. O tempo foi longo, pois eu trabalhava em outras coisas ao mesmo tempo, parte enquanto era assessora da Presidência da República, a outra parte nos quatro anos que trabalhei em Paris, na Unesco.
Quando voltei a morar no Brasil, estava com a coleta de dados pronta, chegara a hora de mergulhar no universo gastronômico amadiano. A tarefa se mostrou difícil e ao mesmo tempo deliciosa. A dificuldade se encontrava nas múltiplas facetas da comida, dentro da literatura. Rápido percebi que, aquilo que papai não cansava de repetir, era a pura verdade: "Os personagens são de carne e osso, precisam respirar, comer, amar". Os dele comiam com gosto, com volúpia, matavam a fome, ou dela morriam quando a miséria era inclemente.
Fui descobrindo que o ato de alimentar ia além. Quase um personagem em si, uma jaca dura madurinha impede o rompimento, anunciado, da amizade de Curió com Cabo Martim, em "Os pastores da noite", no dia em que o primeiro vai contar ao amigo que ficará com sua mulher. O sabor, o cheiro e o mel da fruta quebram a tensão, colocam as coisas em seus devidos lugares, aprofundam a amizade e resolvem o impasse. Uma moqueca de peixe é o único elo de ligação de Quincas Berro Dágua com sua família, trocada anos antes pela liberdade nas ruas da cidade da Bahia. A família, tão rígida, se permite certo prazer comendo o prato preferido antes do velório. Depois chega a vez do próprio defunto, que vai se regalar com os amigos no saveiro de mestre Manoel, antes de se atirar ao mar.
Eram muitos e diferentes os detalhes, me deixando em dúvida sobre o que fazer com o material tão rico. Confesso que pensei em retomar a faculdade para uma pós-graduação em psicologia social, ou talvez em antropologia, tendo o comer na literatura como tema. O gosto pelos livros de cozinha, no entanto, se sobrepôs, e eu estabeleci a estrutura de três livros: Cozinha Baiana, Frutas e Comida Ritual.
Passava agora para outra etapa: as receitas. Queria encontrar as melhores, aquelas que faziam fama na Bahia. Saí em busca das cozinheiras, com suas especialidades. Papai, que rondava o assunto, me dava dicas.
-- Que tal falar com dona Maria?
Dona Maria Eulina era uma cozinheira de mão cheia e tempero perfeito. Toda vez que se fazia festa grande na Rua Alagoinhas, era ela quem se ocupava da cozinha.
-- Mas o sarapatel, minha filha, tem que ser o de Aíla!
Ele dava a dica para a receita perfeita do nosso prato preferido. Aíla era a cozinheira de Calá e Auta Rosa, seu sarapatel imbatível, dando água na boca dos viventes.
Com Maria Sampaio fui conhecer Dadá, que me ensinou seus segredos e virou minha irmã.
Busquei dona Canô Velloso para bolos e doces. Foi uma tarde maravilhosa em Santo Amaro. Ela falava como minha avó Lalu, cheia de sabedoria, absolutamente descrente da minha capacidade de reproduzir a receita à altura:
-- Ah, minha filha, duvido que você acerte... Esse doce de casca de laranja, Bethânia adora! Mas só come o que eu faço, muita gente já tentou... Não fique triste, ninguém acerta mesmo...
-- Paloma, corre aqui, era papai uma vez mais, dando mostras do seu interesse por meu trabalho. Chegou Rufino, peça a ele para ensinar o Teiú Moqueado.
E lá ía eu de papel e lápis na mão encontrar seu Rufino, ex-pedreiro na construção da casa, que se tornou um amigo. Enroladíssimo, deu a receita mais difícil de se decifrar:
-- Fica no fogo o tempinho dele...
-- Dele quem, seu Rufino?
-- Do teiú, ora...
E assim foi, muitas receitas, muitos mestres da arte culinária, tudo feito em casa e aprovado.
Quando dei a escrita por finda, imprimi e dei o volume para papai ler. Ele era bastante rigoroso com a sua família, um crítico severo de tudo que mamãe, João e eu escrevíamos, assim que esperei bastante ansiosa por seu comentário, que chegou uma semana depois.
Me disse que gostara bastante (ufa, que alívio!), mas que tinha poucos textos meus. Achava a introdução muito boa, acreditava que eu poderia, e deveria, escrever textos sobre cada receita. Me intimava mesmo a fazê-lo. Fiquei feliz por ele confiar na minha escrita, mas morta de medo de não conseguir cumprir a tarefa. Consegui! Ele gostou!
Uma última reclamação vinha anotada na última página, sublinhado: CADÊ O CREME DE ABACATE? A discussão foi longa, eu sustentava que ele nunca dera um creminho de abacate a nenhum personagem, ele contestava que dera sim, não lembrava a quem, ademais era uma de suas sobremesas favoritas. O livro acabou saindo sem o creme de abacate. Quando voltei ao banco de dados para escrever o livro das frutas, lá estava ele, papai tinha razão. A receita entrou aí, com as explicações e meus pedidos de desculpas.
O livro da cozinha baiana fez sucesso, foi traduzido para o italiano e o francês, teve nova edição sem ilustrações e se esgotou. Não foi reeditado, e eu recebia, frequentemente, pedidos de exemplares. Ao chegar ao fim seu contrato, o ofereci à Companhia das Letras, que vinha de formar parceria com a Panelinha, de Rita Lobo. Foi a sopa no mel, o ouro sobre o azul, a união exata. Rita entendeu meu livro perfeitamente, deu às receitas uma padronização há muito desejada e o vestiu de ouro e rendas. Está lindo!
Dia 14 passado recebi os amigos paulistas para apresentá-lo. No próximo dia 21 será a vez dos amigos cariocas -- os habitantes e os de passagem -- me darem a alegria de abraçá-los. A festa baiana será em novembro, dia 11! Os convites vêm anexados, para ninguém esquecer!
Bom apetite... Ops... Bom domingo a todos!






























